ESTADA E RETORNO DE BUENOS AIRES

Estada na Argentina -

Passamos dias muito bons lá em San Fernando, Argentina. Ficamos apoitados no belo Club de Veleros Barlovento, que se orgulha de ser um clube somente para veleiros. Passeávamos muito de bicicleta pelas ruas arborizadas e asfaltadas desta cidade. Conhecemos lugares pitorescos como o armazém do Camou, uma loja náutica com dois ambientes: de usados e de peças de museu. São fantásticos ambos os lugares. Seguidamente íamos passear e acabávamos visitando Camou, que ficou nosso amigo.

Meu diário de bordo no dia 10 de abril dizia o seguinte:

_"Hoje é sexta-feira santa. O dia amanheceu lindo, céu azul e temperatura pelos quinze graus. Apesar da data, fomos convidados para uma parrilha, ou assado, pelos novos amigos do barco "Outro Amigo". Nome bem sugestivo, é um casal de idade entre sessenta e setenta anos. A família toda é de velejadores."          

Fizemos amizades com esta família de argentinos que moram no sul do país, mas são sócios do clube onde estávamos. O casal Jorge e Mônica, pais de Florência, seu esposo Ezequiel e seus filhos Santiago, Josefina e Pilar ou Pily. Ficamos muito amigos, pois Ezequiel e Flori estavam terminando seu veleiro, o Ypake, um Bruce Roberts, de aço para singrar a costa brasileira no ano seguinte. Apesar do seu trabalho no barco, eles sempre eram muito solícitos.

Conhecemos também outros navegadores como o Stephens, um alemão com seu veleiro de 46 pés também de aço, o Carioca. Curioso foi que há três anos atrás esse barco me chamara a atenção em Salvador pelo seu desenho na proa: uma espécie de redemoinho colorido. Fui conhecer seu dono na Argentina!

Outro casal que tivemos o privilégio de conhecer foi Richard, Karin e seu filho Sam, com o veleiro Isis, de ferro-cimento e convés de madeira que eles mesmos construíram a trinta anos na Nova Zelâlndia, e que tinham chegado em San Fernando à uma semana de nossa partida. Eu gostei muito deles e de sua simplicidade e o amor à vela.      

Como estávamos lá a passeio, chegou o momento de voltar para o Brasil, afinal já estávamos no mês de maio.   

Antigamente, mas nem tanto, o Club de Veleros Barlovento era parada quase obrigatória para cruzeiristas que passavam pela argentina, pois oferecia trinta dias de amarra de cortesia a estrangeiros. Tivemos só uma semana, e quando fomos embora soubemos que havia terminado as cortesias totalmente. Talvez um sinal da crise!

 

Começando a voltar -

 

          

 

                  foto com Ricardo e Buenos Aires ao fundo

 

O Dieter Brack, um amigo nosso que veio à Argentina para negócios aproveitou o útil ao agradável e resolveu voltar para o Brasil conosco, assim nos ajudava na, muitas vezes, complicada navegada de volta.

A saída foi programada para 14 de maio com destino a Colônia de Sacramento, Uruguay.  Nossa idéia foi voltar pelo mesmo caminho da vinda, isto é, pelos mesmos portos uruguaios. Fizemos os trâmites em Tigre no dia anterior, bastante chuvoso e frio.

Depois de abastecido com diesel, às 10 horas iniciamos nossa navegada Rio Lujan abaixo. O vento era sudeste pelos 20 knots e fazia um friozinho de 12 graus. De trinqueta aberta e mestra, seguimos o Canalete Costanero até a boia "km 20", depois aproamos para Colônia.

 

    

 

 Chegamos às 16 horas. A maré estava alta e a água cobria o trapiche de concreto. O Dieter desceu naquele frio e, com água pelas canelas, bravamente amarrou a proa do TAO. Sofremos um bocado, pois o vento continuava forte e em Colônia a poita da popa fica muito longe do trapiche, para atraque de barcos com grande loa.

 

 

       

 

       TAO amarrado ao molhe (último barco) e Colônia ao fundo 

 

Depois disso, depois de baixada a maré, fomos passear pela cidade e mostrar o que conhecíamos ao Dieter.

 

 

      

 

                    arquitetura antiga e farol ao fundo

 

No dia seguinte 15, o vento acalmara para 5 knots, pressão atmosférica estável e temperatura pelos 20 graus. Às 10 horas da manhã partimos para Juan Lacaze na base do motor. Chegamos às 14 horas.

Naquela noite a pressão barométrica baixou um pouco. O Puerto Sauce, como também é chamado, é bastante abrigado, e foi uma noite tranquila. Partimos às 6 horas da manhã, dia 16, porque tínhamos muito chão, digo muita água pela frente: 77 milhas até Montevidéo. Com uma temperatura de 16 graus, o vento começou aos poucos por través, que era mais ou menos N v, chegando a ficar numa média de 20 knots, mas depois, mais perto da chegada, foi virando para um contravento, NE v, com rajadas de até 26 knots. Como já era maio e escurece mais cedo, chegamos às 18 horas já sem luz do sol, mas por sorte ainda conseguíamos ver a entrada e os molhes do Puerto Buceo.

Apoitamos, comemos algo e fomos dormir. No dia seguinte, 17, passeamos e almoçamos num shopping.

Dia 18 às 8 horas partimos novamente, agora com destino a Piriápolis, 43 milhas a leste. Era um dia feio, com chuviscos. A pressão era estável, a temperatura era de 15 graus e o vento acalmara, mas ainda era de N v. Seguíamos com a mestra içada e calçados no motor. A navegada foi sem maiores atrativos, a não ser comer bem, ouvir música e jogar conversa fora.

Para o Dieter era tudo especial. A cada lugar que passávamos seus olhos brilhavam buscando novidades! Não é para menos, não são todos os velejadores que se encorajam a descer para estas parágens. Porém, além de ser algo a mais em nossos currículos náuticos, eu posso dizer que é tranquilo quando se tem tempo para aguardar a melhor condição de mar. E sobre isso nós tivemos a maior prova aqui mesmo em Piriápolis.  

 

 

 

Chegamos às 15 horas com sol. O tempo abriu e esquentou. Neste porto hà muitos veleiros estrangeiros aguardando para subir ou descer a costa. Ao encostar no box, um solícito velejador já esperava os cabos para ajudar na atracagem.

Aproveitamos bastante nosso tempo lá e, quando deu, fizemos um churrasquinho a bordo do TAO porque "ninguém é de ferro"!!

 

    

 

                            Dieter e Marga brindando!

 

 

     

 

           Ricardo e Marga curtindo com o Travel-Lift ao fundo

 

Conosco já eram 8 veleiros, com suas tripulações, no porto: Jonathan de fibra 38 pés, italiano de Luigi e Sílvia; Chiloé, fibra 45 pés, francês de Patric e Naná; Afun Davu, alemão 42 pés de aluminio de Werner e Emie; Mago del Sur, de aço uns 50 pés do argentino Mono e sua esposa;  Tewakenui, neo-zelandês de aço de 38 pés de Marc, esposa e filha que encontráramos na vinda; outro veleiro francês, design Damien IV de aço 36 pés de André e Sara e outro alemão de madeira de 1900 que não lembro o nome. No dia seguinte chegou outro veleiro francês, 38 pés de fibra, o Joz III, de Michel e Marie Noëlle. Alguns dias depois chegou mais um veleiro francês, o Fleur des Ménanges, aço de 36 pés de Jean Michel e Brigitte.

Desses barcos o Joz III, o Jonathan, o Fleur des Ménanges e nós estávamos aguardando tempo bom para subir ao Brasil. Resolvemos partir em conjunto para termos mais segurança.

Logo nos primeiros dias fomos convidados para uma confraternização entre todos os navegadores no trapiche, no entardecer com o intuito de nos conhecermos. Cada veleiro deveria levar algo para comer e beber. Foi muito legal ver todos conversando em várias linguas diferentes e se entendendo!!! É o espírito dos que vivem no mar, que se ajudam e compartilham experiências e celebram a vida! E nós nos sentimos fazendo parte desse mundo!  

 

    

 

                            Grupo posando para a foto

 

    

 

                        mesa posta no trapiche 

 

Todos os dias nós verificávamos as previsões do tempo em vários sites e analisávamos em conjunto as possibilidades de saída. Teve uma vez que chegamos a dar saída no porto e estávamos prontos para o dia seguinte, mas desistimos na última hora, e foi bom termos desistido, pois entrou uma porranca daquelas! Incrivelmente ficamos 22 dias aguardando oportunidade para partir pois o tempo estava bem complicado e ninguém queria arriscar sair em uma janela de tempo curta. Numa oportunidade nós do TAO encontramos uma janela de tempo que daria para arriscar sair um pouco antes da frente chegar, evitando assim pegar o swel muito crescido, mas todos os outros velejadores, exceto Silvia, esposa de Luigi não concordaram. Em uma reunião no Jonathan comentavam assim: Nós não temos compromisso inadiável em Rio Grande que nos faça arriscar! Como éramos os menos experientes da turma acabamos ficando. Dois dias depois perceberam o erro, que nos obrigou a esperar muito tempo por um nova oportunidade. Isso proporcionou uma confraternização a bordo do Joz III somente com o grupo que subiria a Rio Grande chamada por eles e traduzido por nós como: "o encontro para encher o pote com as lágrimas dos que não puderam partir"!! Foi muito legal, com bebidas a vontade e conversas a mil entre franceses, italianos e brasileiros! Fomos ficando muito amigos, de coração! Essas situações acontecem e temos que levar da melhor maneira, pois é claro que cada um é livre para fazer o que quiser! Os resultados vamos colher depois...

 

     

 

                a bordo do veleiro Joz III, da esqu. p dir.:

                      Luigi, Ricardo, Marga e Dieter

 

 

 

      

 

              Aqui já no fim da festa e garrafas quase vazias!

 

Dias depois a Marga recebeu notícias que a saúde de sua mãe não ia bem e resolveu pegar um ônibus para Porto Alegre para ficar mais a par da situação. Ela ficou lá por uma semana. Nesse meio tempo o Dieter também recebeu uma notícia que sua mãe caíra ao descer de um ônibus e fraturara o joelho. Ele não quis me falar, mas ao perceber sua anciedade, acabou então me contando. Logo eu sugeri a ele que voltasse a Porto Alegre e que não se preocupasse conosco, pois tudo ia dar certo! Ele foi com o peito apertado!

Dois dias depois a Marga voltou a Piriápolis para continuarmos nossa aventura a bordo do TAO. Agora éramos somente nós dois! Isso me instigava, pois pensava nisso desde quando partimos rumo sul, ainda lá em março!           

 

O mar nos espera –

Finalmente se abriu uma janela boa de tempo e combinamos para o dia seguinte, 09 de junho soltar as amarras do porto de Piriápolis rumo a Rio Grande. Éramos Jonathan, Joz III e nós. O quarto veleiro, Fleur des Ménanges saiu um dia antes pois seu motor não acompanharia a velocidade dos demais porque era subdimensionado e fazia no máximo 4 knots. Havia uma neblina densa naquela manhã, temperatura de 11 graus, pouco vento de sudoeste e pressão estável. Fomos os últimos a sair porque meu cartão de crédito resolveu falhar ao pagar a secretaria, mas depois de algum tempo consegui e logo depois estávamos ultrapassando a pequena flotilha. Mantivemos uma média de 6 knots no motor, mas a tarde o vento melhorou e pudemos velejar por toda a noite. Vento era frio de sudoeste e a noite escura. Decidimos fazer o turno de 2 horas para cada um, mas lá pela meia-noite quando assumi o turno resolvi esticar até às 5:30 da manhã, pois a Marga estava dormindo tão ferrada que não tive coragem de acordá-la. Quando ela acordou e viu o horário me xingou! E com razão pois estava congelado! Ela assumiu o turno e eu fui dormir. Mais tarde ela me chama porque o piloto não estava segurando o rumo e saíra da rota programada porque o vento apertou bastante. Decidi diminuir a área vélica baixando a mestra. Fiz isso com muito receio, pois as ondas aumentaram e o TAO balançava doidamente de um lado para o outro! Com o convés escorregadio, apesar de estar com o cinto de segurança fiquei com medo de me desiquilibrar e cair na água! Depois de executada a tarefa, fui para dentro me deitar mas o barulho das coisas dentro dos armários e da pia era tal que não conseguia dormir. Tinha uma panela de pressão cheia de sopa que estava em cima do fogão que não sei como não voou para o chão! Logo a Marga colocou-a dentro da pia. Foi assim por toda a noite. Às 10 horas da manhã quando acordei, o vento e as ondas tinham acalmado. Continuamos somente com a genoa fazendo uns 6 knots, nada mal. O dia todo foi assim. Na noite seguinte resolvemos mudar o modo de vigilia, pois era muito desconfortável ficar lá fora por causa do frio. Resolvemos ficar deitados no sofá de boreste com o radar/plotter voltado para trás onde se podia monitorá-lo deitado e, a cada 15 minutos regulados pelo celular, tínhamos que levantar e dar uma boa olhada em volta procurando por luzes de embarcações. Deste modo ficou muito melhor e até mais seguro pois se dormíssemos neste intervalo, o celular acordaría-nos. Quando amanheceu estávamos perto da barra de Rio Grande. Na noite anterior mantivemos uma média de 5 knots para chegarmos de dia na barra. Fizemos contato com o Joz III, que passára-nos à noite, e com Jonathan, que estava mais atrás. Ao entrar na barra a corrente era de 2 knots contra, apesar de estarmos no horário da maré enchente! Que droga! Depois soube que em Rio Grande a maré não conta, e sim a altura da lagoa dos Patos, causada pelas chuvas, e o vento predominante, que faz entrar ou sair água pelo canal.                   

Em Rio Grande ficamos no Yacht Clube, que é conveniado com o ICG, e os nossos amigos ficaram no Museu Oceanográfico, que é de graça, exceto o Fleur des Ménanges que continuou rumo a Florianópolis aproveitando o bom tempo. Era dia 11 de junho, dia do aniversário da minha mãe. Liguei a ela para dar os parabéns, matar a saudade e dar avisar a familia de nossa chegada.

À noite fomos jantar com Michel e Marie Noëlle em uma churrascaria para mostrar que aqui no sul do Brasil é que se come o melhor churrasco do mundo, e mais barato que na Argentina e Uruguay. Eles concordaram conosco! Como é bom voltar!!! Convidamos nossos amigos de conhecer a Lagoa dos Patos e desbravar essa beleza, mas não conseguimos convencê-los. A má fama da Lagoa dos Patos ultrapassou nossas fronteiras e, ademais não tinham muito tempo (6 meses) para atravessar nossa costa até o Caribe.   

Então dia 13 nos despedimos dos queridos amigos e fomos para Tapes, destino final da nossa viagem.

O tempo se manteve bom com pouco vento de popa e muito sol. Navegamos todo dia e parte da noite pela Lagoa dos Patos, onde vimos o nascer da lua cheia que iluminou tudo em volta! Ancoramos no Cristóvão Pereira já tarde da noite para, no dia seguinte, domingo, seguir para Tapes, onde Dieter, maximilia e outros amigos nos eperavam com um bom churrasco! Amanheceu com uma neblina muito densa que foi se dissipar somente pelo meio dia.

Tivemos uma pequena recepção na chegada dos amigos Dieter, Maxi, Geibe e Meriane e Jordan, Cris e seu filho Henrique.             

 

                                                  

  

 



03/11/2009
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