DIVAGAÇÕES SOBRE BARCOS DE AÇO

 

Antes de comprar o TAO, que se chamava Vitória III, nunca pensei em ter um barco construido em aço. Ouve-se tanto a respeito do trabalho e manutenção que esses barcos exigem que eu tinha verdadeiro horror, só de pensar! Mas, como só o tempo faz mudar convicções, acabei comprando um veleiro de aço e, ainda por cima usado!!

Meu grande amigo de navegadas e conversas de trapiche Dieter Brack sempre me dizia que muitos dos grandes navegadores que circulam pelo mundo preferem a construção em aço. Ele tem subsídios suficientes para manter seu argumento. Ele conhece bem o Lizard, um veleiro alemão de 40 pés, do casal Gerd e Helga, a qual tem parentesco com a familia de Dieter. Por esse motivo ele teve a oportunidade de navegar muitas vezes nele e de se apaixonar, não só pelo design e beleza, mas principalmente pelo material com que foi construido. Helga, um dia me confidenciou que, com o dinheiro que pagaram pelo Lizard poderiam comprar um Beneteau do mesmo tamanho ou outro modelo de fibra da moda, mas preferiram o Lizard pelas muitas qualidades, mas principalmente pela segurança.

Outro grande amigo que também me ajudou a tomar a decisão foi o Ademir de Miranda, o "Gigante" do veleiro Entre-Pólos, obviamente de aço e construído no mesmo estaleiro do TAO, que voltou a poucos meses de uma viagem até a Europa via Caribe sem qualquer problema. Ele me tranquilizou principalmente quanto ao meu maior medo: a manutenção.

Outro grande velejador que me ajudou e ajuda muito até hoje é o Jan, do veleiro Jamaluce, um Bruce Roberts 43, e sua esposa Célia que, eventualmente o acompanha. Suas experiências, nesses muitos anos de subidas e descidas em solitário pela costa brasileira, deram a ele um conhecimento sem igual da manutenção a bordo e em idéias simples e baratas do dia a dia de um velejador. Ele adora conversar e sempre está disposto a ajudar!      

Voltando ao assunto, o aço tem vantagens e desvantagens como qualquer outro, porém as principais vantagens são sua robustez e facilidade de construção e reparos. As desvantagens, que são relativas, são que não se pode "abandonar" o barco em uma marina qualquer por muito tempo, pois os trabalhos de manutenção vão se acumulando e podem até chegar ao ponto de ficar cara demais sua recuperação. Eu disse "desvantagem relativa" porque é claro que nunca é bom deixar nenhuma embarcação largada, sem marinheiro e sem cuidados. A parte elétrica, os eletrônicos, o motor, as velas, o estaiamento, o madeiramento são alguns exemplos de coisas que precisam de acompanhamento e manutenção permanente em qualquer tipo de embarcação, principalmente se estão docados em água salgada. Portanto, para quem gosta de ter seu querido barco sempre em dia e se preocupa com os detalhes, o material de construção não faz nenhuma diferença. O que acontece, na minha opinião é que, para aqueles navegadores que passeiam com seus barcos eventualmente nos finais de semana ou em navegadas de curta duração, ou seja, não moram a bordo, os barcos de fibra de vidro são mais fáceis de se manter. Isso é uma realidade. Mas, por outro lado, para os que pretendem viver a bordo ou fazerem navegadas com um nível de segurança extremo não vejo melhor material que o aço. Isso porque o barco em aço é uma estrutura em monobloco, ou seja, todo o conjunto do casco e quilha faz parte de uma única estrutura soldada dando uma resistência fantástica em caso de abalroações e encalhes.

Outra questão é quanto à manutenção. A evolução de tintas a base de epoxi dão uma vida longa aos cascos que, segundo várias reportagens de engenheiros navais em revistas especializadas, prolongam a repintura em até dez anos ou mais! Exceto aqueles retoques necessários quando de um arranhão mais forte aqui ou ali. Em último caso, pode-se cortar parte da chapa danificada e soldar outra no lugar sem prejudicar a estrutura. E esse serviço pode ser feito por qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento em metalurgia e solda ou até pelo próprio dono. A chapa nova é encomendada na espessura e forma desejada e soldada no lugar. Não precisa de muitas ferramentas, é um serviço bem rápido de se fazer e em qualquer lugar do mundo.

Não é prá menos que navios, plataformas, rebocadores, bóias e mangrulhos são feitos em aço!

Mas não é porque um veleiro é de aço que precisa ser feio e mal acabado!  Modestia à parte, o TAO foi confundido diversas vezes na Argentina, por parecer ser de fibra! Também pudera, ele foi construído por um dos melhores estaleiros do Brasil de barcos de recreio feitos em aço: o famoso Estaleiro Vilas Boas. E isso me orgulha muito!                  

Também a questão da velocidade é algo a se abordar: hoje em dia os projetos podem ser mais otimizados e, com a ajuda de programas de computador pode-se avaliar onde se deve reforçar e onde se pode aliviar peso sem perder suas características estruturais. Isso já se faz em cascos de fibra.

Ao navegar pela Uruguay e Argentina tive contato com diversos velejadores e seus barcos de várias partes o mundo. Procurei fazer uma avaliação do estilo, ou espírito que simboliza o dono de um veleiro de aço. E fiquei feliz em perceber que são muito cuidadosos, além de excelentes navegadores.

Normalmente são os próprios donos que construíram seus barcos, o que permite fugir do padrão de organização interna e de convés. Normalmente esses navegadores são experiêntes o bastante para perceber que, por exemplo, a mesa de navegação precisa ser maior, ou que o banheiro pode ser mais espaçoso, ou que não precisa de anteparas que divide a sala do camarote de proa. As alterações são muito particulares e são feitas quase que sob medida! Aliás, alguns confessam que essas mudanças nunca terminam! E isso também diferencia dos veleiros de série em fibra que são fabricados atualmente! Até porque, nos barcos de série é quase proibido de se fazer alterações, por conta de possível desvalorização que podem sofrer. E infelizmente, os desenhos internos são praticamente idênticos e sem novidades, exceto um charmezinho aqui e ali!

Aqui no Brasil, a procura pelos veleiros de aço é muito pequena, ao contrário da Europa, Nova Zelândia e Argentina, por exemplo. Isso me faz concluir que é porque o Brasil ainda não tem uma identidade náutica desenvolvida. É possível que isso mude, pois temos boa mão-de-obra, matéria-prima nacional e uma costa sem limites para desbravar. Penso que quando isso acontecer vamos conseguir deselitizar um pouco esse esporte/modo de viver.   

 

 

 

 

   



10/11/2009
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